Calibração de sismógrafos: certificado, rastreabilidade e autochecagem
Saiba o que conferir na documentação do conjunto, como definir a periodicidade e por que o teste interno do equipamento não substitui a calibração.
A calibração ajuda a conhecer a resposta do instrumento por comparação com referências. Para o monitoramento sismográfico, a pergunta prática é: a documentação apresentada cobre o equipamento, os sensores e as condições de medição que serão usados? Uma data recente ou um selo na maleta não responde sozinho a essa pergunta.
O certificado integra a documentação da campanha. Ele precisa ser analisado junto com o manual, a configuração, os requisitos do projeto e o histórico do conjunto. Se você está escolhendo um equipamento, comece pelo guia de sismógrafos de engenharia.
Calibração, verificação e autochecagem: qual a diferença?
Segundo o Inmetro, a calibração relaciona valores de referência e suas incertezas com as indicações do instrumento, em condições especificadas. A verificação reúne evidências de atendimento a requisitos definidos. Portanto, apresentar resultados de calibração e declarar atendimento a um critério são operações distintas.
A autochecagem é um teste funcional cuja abrangência depende do equipamento e do procedimento previsto no manual. Seu resultado deve ser interpretado dentro desse alcance. Para tratá-lo como informação de calibração, seria necessário demonstrar a comparação com referências e as condições metrológicas correspondentes; a simples indicação de funcionamento não oferece essa evidência.
- Calibração: fornece informações sobre a resposta metrológica nas condições avaliadas.
- Verificação: examina atendimento a requisitos previamente estabelecidos.
- Autochecagem: auxilia o diagnóstico funcional dentro do alcance definido pelo fabricante.
Um resultado positivo no teste interno não demonstra, por si só, que toda a faixa de amplitude e frequência está adequada. Um resultado negativo exige investigação antes de continuar confiando nos registros.
O que conferir no certificado de calibração
Leia o documento completo, incluindo observações e anexos. A identificação e os resultados precisam permitir relacioná-lo ao conjunto da campanha. Confira as informações em relação ao manual, ao procedimento de medição e aos requisitos do projeto.
- Identificação: laboratório, número do certificado, datas, modelo e números de série do registrador e dos sensores avaliados.
- Escopo do conjunto: quais canais, componentes, sensores e configurações foram incluídos? Houve avaliação do conjunto ou de elementos separadamente?
- Método e condições: procedimento, referências empregadas, condições relevantes e eventuais restrições.
- Resultados: grandezas, unidades, pontos de amplitude e frequência ensaiados, desvios ou fatores apresentados e incertezas correspondentes.
- Intervenções: registros de ajustes ou reparos e, quando disponíveis, resultados antes e depois da intervenção.
- Conclusões: caso haja declaração de conformidade, confira o requisito e a regra de decisão utilizados. A ausência dessa declaração não transforma o certificado automaticamente em aprovação ou reprovação.
Exemplo ilustrativo: a equipe recebe um registrador e um geofone externo, mas encontra no certificado somente a identificação do registrador. Antes de mobilizar, solicita esclarecimento e a documentação que permita avaliar a cobertura do sensor e da configuração. O exemplo mostra uma conferência necessária; não descreve um caso real nem permite concluir, sem análise, que o conjunto está inadequado.
Faixas de frequência na ABNT NBR 9653:2018
A ABNT NBR 9653:2018, item 4.3.1.2(d), prevê no certificado pelo menos oito pontos de calibração distribuídos entre 2 Hz e 250 Hz, incluindo os extremos, tanto para a velocidade de vibração de partícula de pico quanto para a pressão acústica de pico. Ao conferir o certificado, verifique os pontos registrados para cada uma dessas grandezas.
Frequências e tolerâncias de calibração
ABNT NBR 9653:2018
Exemplo com oito pontos: 2, 4, 8, 16, 31,5, 63, 125 e 250 Hz.
Vibração do terreno
Velocidade de vibração de partícula de pico · Tabela 1
Frequência (Hz) · escala logarítmica
- 2 Hz ≤ f < 4 HzPontos do exemplo: 2 Hz
- Limite superior: +5%; inferior: −3 dB−3 dB equivale a aproximadamente −29,2% em amplitude.
- 4 Hz ≤ f ≤ 125 HzPontos do exemplo: 4 · 8 · 16 · 31,5 · 63 · 125 Hz
- ±5% ou ±0,5 mm/s, o que for maiorA parcela de 0,5 mm/s depende da amplitude de referência.
- 125 Hz < f ≤ 250 HzPontos do exemplo: 250 Hz
- Limite superior: +5%; inferior: −3 dB−3 dB equivale a aproximadamente −29,2% em amplitude.
Pressão acústica
Pressão acústica de pico · Tabela 2
Frequência (Hz) · escala logarítmica
- 2 Hz ≤ f < 4 HzPontos do exemplo: 2 Hz
- Limite superior: +1 dB; inferior: −4 dBEm amplitude: aproximadamente +12,2% e −36,9%.
- 4 Hz ≤ f ≤ 125 HzPontos do exemplo: 4 · 8 · 16 · 31,5 · 63 · 125 Hz
- ±1 dBEm amplitude: aproximadamente +12,2% e −10,9%.
- 125 Hz < f ≤ 250 HzPontos do exemplo: 250 Hz
- Limite superior: +1 dB; inferior: −4 dBEm amplitude: aproximadamente +12,2% e −36,9%.
A norma exige no mínimo oito pontos por grandeza, incluindo os extremos. A sequência mostrada é uma distribuição ilustrativa; os pontos realmente ensaiados constam do certificado.
As tolerâncias acima seguem as Tabelas 1 e 2, às quais o item 4.3.1.2(g) remete para avaliar os resultados do certificado. Os pontos de 4 Hz e 125 Hz pertencem à faixa central. Os marcadores representam frequências de ensaio ilustrativas; os desvios e as incertezas de uma calibração devem ser lidos no certificado correspondente.
Como interpretar a margem percentual
Na faixa central da vibração, compare 5% da amplitude de referência com 0,5 mm/s e adote o maior valor absoluto. Para uma amplitude de referência de 10 mm/s, ambos valem 0,5 mm/s. Abaixo disso, a parcela de 0,5 mm/s corresponde a mais de 5%; acima, prevalece a parcela percentual. Esse cálculo explica a tolerância e não representa um resultado de calibração.
Para converter uma diferença em dB em variação relativa de amplitude, usamos a relação logarítmica descrita no Guia do SI do NIST, seção 8.7: variação (%) = 100 × (10ΔdB/20 − 1). Por isso, ±1 dB corresponde a aproximadamente +12,2% e −10,9%, e não a uma porcentagem simétrica. As equivalências ajudam na leitura; os critérios da norma permanecem nas unidades originais indicadas.
Rastreabilidade significa acreditação RBC?
Não. O Inmetro distingue laboratórios acreditados de laboratórios chamados de “rastreados”. A acreditação envolve reconhecimento formal da competência pela Cgcre; o uso de referências rastreáveis, isoladamente, não torna um laboratório acreditado ou integrante da Rede Brasileira de Calibração.
Ao avaliar uma oferta de calibração acreditada, confira o laboratório e o escopo vigente para o serviço: grandeza, faixa e condições precisam corresponder ao que está sendo contratado. Não basta encontrar uma referência genérica à RBC em uma proposta ou no material comercial.
Peça ao fornecedor a identificação do laboratório e os documentos pertinentes. Se o contrato exigir determinado escopo de acreditação, resolva essa condição antes de enviar o equipamento ou aceitar o conjunto para a campanha.
Qual é a validade da calibração de um sismógrafo?
O Inmetro orienta o proprietário a definir e revisar seu programa de calibração considerando os requisitos envolvidos. Isso não autoriza ignorar uma periodicidade exigida pelo fabricante, contrato, procedimento ou requisito aplicável ao projeto.
Defina o intervalo com base nessas exigências e em fatores como intensidade de uso, transporte, condições ambientais, histórico de resultados e consequências de uma medição inadequada. Documente a decisão e reveja o programa quando surgirem evidências que justifiquem a mudança.
Queda, impacto, reparo ou comportamento anormal podem exigir avaliação antes da próxima data programada. Siga as orientações do fabricante e do responsável técnico para decidir sobre manutenção, verificações adicionais ou nova calibração.
Uma rotina prática antes e depois da campanha
- Antes: confira números de série, documentação, integridade dos cabos, bateria, memória, data e hora. Execute os testes previstos no manual e registre o resultado.
- Na instalação: documente ponto, acoplamento, orientação e parâmetros de aquisição. Use o roteiro de instalação do sismógrafo.
- Durante: acompanhe ocorrências, mudanças de montagem, falhas e condições que possam afetar a medição. Preserve os registros originais.
- Ao encerrar: confira arquivos, identificação e ocorrências. Uma anomalia deve ser examinada quanto ao período e aos dados potencialmente afetados.
Rastreabilidade metrológica e histórico documental da campanha se complementam. O certificado informa sobre a avaliação do instrumento; fotografias de instalação, identificação dos eventos e controle dos arquivos ajudam a reconstruir como a medição foi realizada.
Perguntas frequentes sobre certificados
O certificado garante que a medição atende a uma norma?
Sozinho, não. A avaliação também depende de seleção do instrumento, instalação, configuração, processamento e aplicação do critério correto. O certificado deve oferecer informações pertinentes ao uso pretendido.
Preciso conferir o sensor mesmo quando ele acompanha o registrador?
Sim. Identifique quais elementos e configurações estão cobertos pela documentação. Substituir um sensor ou combinar componentes pode exigir uma análise da validade das informações para o novo conjunto, conforme o fabricante e o procedimento de medição.
Autochecagem aprovada dispensa a calibração?
Não. Ela deve ser usada para a finalidade declarada no manual, dentro da rotina de controle do equipamento. Não substitui a avaliação metrológica exigida para a campanha.
O que solicitar ao alugar o equipamento?
Peça identificação do conjunto, documentação de calibração pertinente, manual e definição das responsabilidades por checagem, configuração e operação. Na locação de sismógrafo da SismoPRO, alinhe essas condições e o suporte necessário na proposta.
Fontes e referências
- ABNT NBR 9653:2018. Guia para avaliação dos efeitos provocados pelo uso de explosivos nas minerações em áreas urbanas. 3. ed., 8 maio 2018. Item 4.3.1.2(d) e (g), pp. 5–6; Tabelas 1 e 2, p. 6 — pontos de calibração e tolerâncias dos resultados.
- Inmetro: diferença entre calibração e verificação.
- Inmetro: laboratórios acreditados e rastreabilidade.
- Inmetro: periodicidade dos certificados de calibração.
- NIST: Guia do SI, capítulo 8, seção 8.7 — grandezas logarítmicas e relação entre dB e amplitude.